Digite "xadrez cérebro" num buscador. Você vai cair, em looping, na mesma frase: o xadrez reprograma o seu cérebro. Às vezes com uma palavra difícil de reforço, neuroplasticidade, e dois estudos como fiança: os taxistas londrinos e os malabaristas.

Esses dois estudos existem. São excelentes. Foram publicados em revistas de primeira linha.

E não dizem o que se faz eles dizerem. Nos dois casos, o resultado mais interessante é aquele que nunca é relatado.

O que a palavra quer dizer, e o que ela não diz

A neuroplasticidade designa a capacidade do sistema nervoso de se modificar em resposta à experiência. É um fato estabelecido, não contestado, e é uma propriedade geral do tecido nervoso.

É também uma constatação praticamente vazia quando usada como argumento.

Dizer "o xadrez modifica o seu cérebro" equivale a dizer que aconteceu alguma coisa quando você aprendeu alguma coisa. Aprender um número de telefone modifica o seu cérebro. Ver uma série modifica o seu cérebro. Se não fosse assim, você não se lembraria de nada. O termo só vira informativo quando se especifica qual mudança, quanto tempo ela dura, e principalmente para que ela serve.

É exatamente nesses três pontos que a divulgação para.

Os taxistas de Londres, e a metade que se esquece

O estudo mais citado da área.

Em 2000, Eleanor Maguire e seus colegas publicam nos Proceedings of the National Academy of Sciences uma comparação por ressonância estrutural entre taxistas londrinos e controles pareados. Os táxis de Londres são um caso exemplar: para tirar a licença, os motoristas têm que passar no "the Knowledge", um exame temível que exige memorizar milhares de ruas e itinerários.

Resultado famoso: o hipocampo posterior dos motoristas é significativamente mais volumoso que o dos controles. E o volume se correlaciona com o número de anos de profissão.

É isso que todo mundo guarda. Agora, a continuação da frase, no mesmo artigo.

O hipocampo anterior, por sua vez, estava correlacionado negativamente ao tempo de carreira. Quanto mais anos de profissão o motorista tinha, mais desenvolvida era a parte posterior, e mais reduzida era a parte anterior.

Isso não é um detalhe técnico. Muda a natureza do resultado. Não se trata de um hipocampo que cresce: trata-se de uma redistribuição dentro de uma estrutura. Uma especialização, com tudo o que essa palavra implica de compensação em outro lugar.

A imagem popular, a de um cérebro que se malha como um bíceps, não corresponde ao que Maguire observou. A imagem correta é a de um orçamento que se realoca.

Os malabaristas, e o terceiro exame

O segundo estudo canônico, ainda mais instrutivo, e aqui é o próprio protocolo que contém a resposta.

Em 2004, Bogdan Draganski e seus colegas publicam na Nature um experimento curto e elegante. Vinte e quatro voluntários, idade média de 22 anos, nenhum deles sabendo fazer malabarismo. Eles são divididos em dois grupos pareados. Primeiro exame para todo mundo: nenhuma diferença de massa cinzenta entre os dois grupos.

O grupo experimental tem então três meses para aprender a cascata de três bolas. Segundo exame assim que eles conseguem, com um critério preciso: aguentar sessenta segundos.

Resultado: uma expansão significativa e bilateral da massa cinzenta na área médio-temporal hMT/V5, especializada no processamento do movimento visual complexo, e também no sulco intraparietal posterior esquerdo. Exatamente as regiões que se esperaria para uma tarefa que consiste em acompanhar bolas no ar.

É aí que a citação costuma parar. Só que o experimento tem um terceiro exame.

Três meses depois. Nesse período, instrução rígida: nenhum dos participantes treina nem tenta progredir. Os autores registram que, nessa altura, a maioria já não conseguia fazer malabarismo direito.

E a expansão de massa cinzenta tinha diminuído.

A palavra que Draganski e seus colegas usam nos próprios resultados é transient, transitória. Ela aparece no resumo do artigo, e a ordem das palavras não deixa margem: uma mudança estrutural "transitória e seletiva".

O estudo mais citado para demonstrar que o aprendizado transforma o cérebro de forma duradoura demonstra, na verdade, que ele transforma enquanto se pratica.

O salto lógico

Vamos admitir tudo o que veio antes, e acrescentar os estudos feitos diretamente com jogadores de xadrez, que de fato evidenciaram diferenças estruturais entre experts e novatos. Nosso artigo sobre o xadrez e o cérebro detalha isso.

Continua tendo um problema, e é esse o assunto de verdade.

Uma mudança estrutural prova que uma atividade foi praticada. Ela não prova nada sobre um benefício, e principalmente nada sobre um benefício em outro lugar.

O raciocínio implícito do mito é o seguinte: o xadrez modifica o cérebro, logo o xadrez melhora o cérebro, logo o xadrez melhora tudo o que o cérebro faz. Dois deslizes numa frase só. "Modificar" não é "melhorar". E uma melhora local, nos circuitos que a tarefa aciona, não é uma melhora geral.

Felizmente, essa questão não precisa ser decidida por raciocínio. Ela é diretamente testável, e já foi testada.

O teste decisivo: a transferência

A questão se chama transferência. Uma competência adquirida num domínio se transporta para outro? A transferência próxima, entre tarefas vizinhas, é bem documentada. A transferência distante, para domínios sem relação, é o ponto de litígio.

Em 2016, Giovanni Sala e Fernand Gobet publicam na Educational Research Review uma meta-análise da questão no xadrez: 24 estudos, 5 221 participantes, 40 tamanhos de efeito. O resultado global é animador. Um efeito médio de 0,34, moderado mas real. Em matemática, 0,38. Em leitura, 0,25. E 0,43 para os programas que passam de vinte e cinco horas de instrução.

Se a coisa parasse aí, o mito seria verdade.

Mas os próprios autores apontam o problema, e ele é enorme: quase nenhum desses estudos tinha um grupo controle ativo. Ou seja, comparavam-se crianças fazendo xadrez com crianças que não faziam nada em especial. Só que nessa comparação, tudo pesa: a atenção de um adulto, a novidade, o entusiasmo de quem ensina, o fato de aprender uma coisa difícil. Nada disso é específico do xadrez.

Sala e Gobet refizeram então o trabalho do jeito certo. Em 2017, dois estudos experimentais publicados na Learning & Behavior comparam a instrução em xadrez com uma atividade controle igualmente exigente e igualmente acompanhada, na resolução de problemas de matemática.

O efeito próprio do xadrez fica indistinguível de zero.

No mesmo ano, na Current Directions in Psychological Science, eles ampliam a constatação para o xadrez, a música e o treino de memória de trabalho. A observação mais incômoda deles não é a ausência de efeito, é a estrutura dela: o tamanho do efeito medido é inversamente ligado à qualidade metodológica do estudo. Quanto mais rigoroso o protocolo, mais o efeito encolhe.

Essa é a assinatura típica de um efeito que não existe. Quando um fenômeno é real, melhorar a medição o deixa mais nítido. Quando ele some conforme se olha melhor, é porque se estava olhando mal.

Nosso artigo sobre o xadrez deixa a pessoa mais inteligente desenvolve esse dossiê pelo lado do desempenho escolar. Aqui, o ponto é mais restrito e mais nítido: o argumento neuroplástico não sobrevive ao teste comportamental. Pouco importa o que a imagem mostra se o benefício anunciado não se mede nos fatos.

O que continua verdadeiro

Não se trata de concluir que o xadrez não faz nada. Ele faz muito, só que não o que lhe atribuem.

Você fica de fato melhor no xadrez, e isso é uma transformação cognitiva considerável. Um jogador experiente não vê o mesmo tabuleiro que um iniciante. Ele percebe estruturas onde o outro vê peças, o que a pesquisa chama de chunking. Essa competência é real, mensurável e profunda. Ela é simplesmente específica.

Alguns efeitos menos espetaculares resistem melhor. A ligação entre atividades cognitivas sustentadas e reserva cognitiva na velhice é documentada, mesmo com problemas de causalidade, e nosso artigo sobre xadrez e Alzheimer discute os limites disso.

E o prazer não precisa de justificativa neurológica. Talvez seja essa a verdadeira questão de todo este artigo.

Por que o mito se sustenta tão bem

Três razões, e nenhuma tem a ver com a solidez das provas.

Ele torna uma paixão respeitável. Dizer "eu jogo xadrez porque gosto" expõe a pessoa a ter que defender o tempo gasto. Dizer "eu desenvolvo o meu cérebro" encerra a conversa. O argumento neuroplástico é uma justificativa social antes de ser uma afirmação científica.

Ele vende. Programas escolares, aplicativos, cursos online: a promessa de um benefício cognitivo geral vale infinitamente mais que a promessa de jogar bem xadrez. O público-alvo de "seu filho vai melhorar em matemática" é cem vezes maior que o de "seu filho vai jogar melhor".

A imagem cerebral convence. Uma imagem de cérebro colorido conquista adesão muito além do que ela demonstra. É um efeito documentado: a simples presença de uma ilustração cerebral aumenta a credibilidade percebida de uma explicação, mesmo quando essa explicação é ruim.

O que fazer com tudo isso

Não escolha o xadrez pelo seu cérebro. Escolha porque o jogo é bonito, difícil e sem fim. É motivo suficiente, e é o único que se sustenta por dez anos.

Desconfie de "reprogramar". O verbo não tem conteúdo verificável. Diante de qualquer afirmação de benefício cognitivo, faça as três perguntas: qual mudança exata, medida como, e comparada com qual grupo controle. A terceira é quase sempre a que falta.

Guarde o terceiro exame. A expansão de massa cinzenta dos malabaristas diminuiu quando eles pararam. Provavelmente é a lição mais útil de todo este artigo, e ela é animadora do seu jeito: o que se constrói pela prática se mantém pela prática. Nenhum capital fica garantido.

Separe a pergunta certa da errada. A pergunta errada é saber se o xadrez melhora o cérebro em geral. A certa é saber como progredir nesse jogo específico, o que é difícil, mensurável e bem mais interessante.

O que ficar disso

Os dois estudos invocados para provar que o xadrez transforma o cérebro de forma duradoura contêm, cada um, um resultado que contradiz esse uso. Nos taxistas londrinos, o hipocampo posterior aumenta mas o anterior diminui: é uma redistribuição, não um ganho. Nos malabaristas, a expansão de massa cinzenta regrediu assim que a prática parou, e os próprios autores a qualificam de transitória.

Quanto ao benefício anunciado, ele foi testado diretamente. Com um grupo controle fazendo outra coisa igualmente exigente, o efeito próprio do xadrez sobre as competências escolares e cognitivas fica indistinguível de zero. E o tamanho do efeito diminui conforme a qualidade dos protocolos aumenta.

O xadrez deixa você bom de xadrez. Já é muita coisa, e essa já era a única promessa honesta.

Depois de ler: na próxima vez que você esbarrar em "o xadrez reprograma o cérebro", procure o grupo controle do estudo citado. Se ele não for mencionado, ou se não fazia nada comparável, você já tem a sua resposta.


Este artigo faz parte de uma série sobre psicologia aplicada ao xadrez. Veja também o efeito Dunning-Kruger no xadrez e o viés do sobrevivente no xadrez.

Fontes

  • Maguire, E. A., Gadian, D. G., Johnsrude, I. S., Good, C. D., Ashburner, J., Frackowiak, R. S. J., & Frith, C. D. (2000). Navigation-related structural change in the hippocampi of taxi drivers. Proceedings of the National Academy of Sciences, 97(8), 4398-4403.
  • Draganski, B., Gaser, C., Busch, V., Schuierer, G., Bogdahn, U., & May, A. (2004). Neuroplasticity: Changes in grey matter induced by training. Nature, 427, 311-312.
  • Sala, G., & Gobet, F. (2016). Do the benefits of chess instruction transfer to academic and cognitive skills? A meta-analysis. Educational Research Review, 18, 46-57.
  • Sala, G., & Gobet, F. (2017). Does chess instruction improve mathematical problem-solving ability? Two experimental studies with an active control group. Learning & Behavior, 45, 414-421.
  • Sala, G., & Gobet, F. (2017). Does far transfer exist? Negative evidence from chess, music, and working memory training. Current Directions in Psychological Science, 26(6), 515-520.